"Há tempos estou pra lhe falar algumas coisas. Tudo tem ficado muito confuso, cada vez mais sinto que você me alcança menos e acho que esclarecer algumas coisas pode ajudar. Você diz que me ama, mas talvez esteja enganado. O amor compreende, e o amor só ama de verdade aquilo que o completa. Talvez você ame quem você é quando estou por perto. Talvez você ame apenas a idéia que tem de mim, e isso não sou eu. Isso é você querendo que eu caiba nos seus anseios, nos seus desejos. Vê? Isso é você amando a si mesmo. Essa é a soma das suas perspectivas, que muitas vezes não condiz com o real. Nesse caso, não tendo eu outra alternativa além de ser o que eu sou, a você restam duas opções: me ame, ou me deixe. Me queira com tudo o que eu tenho de bom e de ruim, com todas as idiossincrasias e as pequeninas coisas que muitas vezes você nem considera correto. Entenda que eu não escolhi e nem tenho culpa de ser cavalo selvagem: o fato de você conseguir cavalgar comigo depende unicamente da sua destreza. Entenda que eu sou como um gato, variável , inconstante, mas sempre honesto: uma vez que se sabe lidar com ele é garantia de carinho e apego eterno. Caso contrário, arranhões e comportamento arredio são inevitáveis. Caso contrário, se prepare pra me ver fugir ou te ignorar. Quem quer conviver com bichos selvagens deve estar preparado para as intempéries. No mínimo existe a garantia de surpresa e nenhuma previsibilidade, nunca se sabe o que pode acontecer. Pra uns isso pode parecer desesperador, para outros é apenas imensamente emocionante. É sempre seu direito botar na balança e decidir se quer viver assim na corda bamba, numa aventura sem roteiro pré-estabelecido. Mas se me quer por perto, deixa-me ser. Não me tome por pretensiosa por falar desse jeito sobre mim mesma. É apenas uma tentativa de que eu e você descubramos se existe realmente algum laço real, ou se ele é feito de filó. Decifra-me, ou te devoro. Sem dó nem piedade."
Ontem, domingo, faleceu uma pessoa muito especial, o tio Zéh. O mais querido, o mais legal, o mais caprichoso, o mais corajoso e o mais forte! Ele foi por descuido próprio e quando fomos ver, talvez já fosse tarde demais. Levá-lo as pressas para o hospital já não adiantou muito. A cirurgia parecia ter tido sucesso, mas nem sempre uma melhora significa uma graça. Ter passado o dia de ontem em necrotério, funerária e hospital não foi nada agradável. E hoje, foi a despedida. Uma dor sem tamanho que só quem já passou por isso, sabe como é. Costumo pensar nele como um super herói, que defendia sua fiel escudeira Roseira com unhas e dentes. Ele era engraçado e brabo, era o amigo pra todas as horas. O paulo que o diga, e minha casa tbm! Só de pensar que minha casa todinha foi ele quem construiu com suas próprias mãos... Lembro como se fosse hoje: o cimento, a terra, o machado e ele aqui dormindo todo santo dia! Até que ficou tudo lindão, como já era de se esperar. Nunca vi uma casa que ele te...
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